"E os que dançavam foram considerados loucos por aqueles que não ouviam a música". Nietzsche
Sempre me intriguei em saber qual tipo de conhecimento seria o mais adequado, se aquele do especialista, focado, restrito e profundo ou se haveria espaço para um tipo de conhecimento generalista, abrangente e superficial. Dito dessa forma, o conhecimento generalista soaria quase a própria negação do conhecimento, incapaz de ir à essência última das coisas, contentando-se em apreender as tendências do movimento. Satisfazendo em perceber as conexões quase despercebidas.
Certa vez ouvi um professor de linguística afirmar que "o especialista é aquele que sabe cada vez mais sobre cada vez menos". Não quis o professor desqualificar este tipo de conhecimento, mas ressaltar uma de suas virtudes, representada pela capacidade de aprofundar-se em busca do conhecimento, descartar evidências e prosseguir o estudo em relação ao objeto remanescente. As razões em relação ao que seria descartado ou mantido beiram, no meu entendimento, ao esoterismo.
O conhecimento do especialista manifesta-se numa linguagem de poder. Este discurso técnico prevalente subsistirá até confrontar-se à oposição de outro especialista. Exceto nestes casos, o especialista reina tal qual uma divindade. Este poder do especialista foi um dos temas prediletos do Foucault, ao identificar este poder místico subjacente em instituições relegadas, até então, como no hospital, na clínica ou na prisão.
Provavelmente, nenhuma instituição seja tão assídua na utilização do discurso técnico-especialista quanto a mídia. Qualquer discurso acompanhado de um "especialistas consultados" transmuta-se em verdade quase inatacável. Se esta verdade estiver em consonância com mainstream, parecerá ainda mais sólida e inquebrantável.
De modo diverso, o conhecimento generalista é naturalmente fluido e mutante, no limiar do senso comum. É um conhecimento de conexões, não de profundidade. Sua natureza superficial pouco serve para solução de problemas práticos. Porém, adequa-se à perfeição para o estudo de cenários e análise de tendências. O conhecimento generalista opera num ambiente de rede, buscando interconexões, traçando linhas onde havia apenas pontos.
Sob determinados aspectos, todas as pessoas são, em alguma medida, especialistas e generalistas. Porém, ao passo que o conhecimento especialista é enaltecido o generalista é relegado a um status secundário, quase uma falha, nunca uma virtude. O sistema de ensino tradicional, fundado sob um viés pragmático, voltado à solução de problemas técnicos, não possui instrumentos adequados para lidar com este tipo de questão.
Em uma empresa um bom técnico é um especialista, ao passo que um bom gerente deveria ser generalista. Um técnico é capaz de apresentar a melhor solução para determinado problema. Um generalista seria capaz de antever o problema. O técnico mede a intensidade da chuva. O generalista sabe que ela será passageira pelo canto dos pássaros.
Resumindo, em que pese a prevalência pelo conhecimento técnico, o conhecimento generalista é também fundamental. Uma empresa que possua apenas funcionários generalistas não possuirá qualidade nos seus produtos. Já empresa que possua apenas especialistas terá maior dificuldade em perceber o vento da mudança. A solução ideal é uma mescla das duas habilidades.
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